FIDALGO WEB
   FINAL

De repente. No jogo da vida, ele era o pai e seus atuais contestadores. Como não havia pensado nisso antes? Certamente por não ter tempo, pois andava muito ocupado com os negócios, a luta pela sobrevivência, a sede de passar fins de semana longe da cidade grande, a vontade de mergulhar no silêncio sem precisar dialogar com os filhos.

Ele jamais tivera a idéia de comprar uma cadernetinha de capa vermelha pala anotar uma à frase sobre seus  herdeiros, jamais lhe havia passado pela cabeça escrever que tinha orgulho daqueles que continuam o seu nome. Justamente ele, que se considerava o mais completo pai da Terra?

Uma onda de vergonha quase o prostrou por terra numa derradeira lição de humildade. Quis gritar, erguer  procurando agarrar o velho para sacudi-lo e abraçá-lo, encontrou apenas o vazio.

Havia uma raquítica rosa vermelha num galho no jardim de uma casa, o sol acabava de nascer. Então, Carlos Alberto acariciou as pétalas e lembrou-se da mãozona do pai podando, adubando e cuidando com amor. Por que nunca tinha percebido tudo aquilo antes?

Uma lágrima brotou como o orvalho, e erguendo os olhos para o céu dourado, de repente, sorriu e  desabafou-se numa confissão aliviadora:

- "Se Deus me mandasse escolher, eu juro que não queria ter tido outro pai que não fosse você velho! Obrigado por tanto amor, e me perdoe por haver sido tão cego."

  Para quem já teve e para  quem tem um pai...

 



Escrito por MANOEL PEREIRA às 15h53
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   CONTINUAÇÃO III

Carlos Alberto fechou os olhos e viu toda a cena quando por causa de uma bebedeira, tinha ido para a  cadeia e naquela noite, se o pai não tivesse aparecido para impedi-lo de ir ao baile com os amigos...

Momento da solidão, num grito de silêncio, porque era desse jeito que ele era, ninguém o havia ensinado  a chorar e a dividir suas dores, o mundo esperava que fosse durão para que não o julgassem nem fraco e nem covarde.

E, no entanto, agora Carlos Alberto estava tendo a prova que, debaixo daquela fachada de fortaleza havia um coração tão terno e cheio de amor.

A ultima pagina. Aquela do dia em que ele havia partido:

- "Deus, o que fiz de errado para meu filho me odiar tanto? Por que sou considerado culpado, se nada fiz,  senão tentar transformá-lo em um homem de bem?"

"Meu Deus, não permita que esta injustiça me atormente para sempre. Que um dia ele possa me compreender e perdoar por eu não ter sabido ser o pai que ele merecia ter."

Depois não havia mais anotações e as folhas em branco davam a idéia de que o pai tinha morrido naquele  momento, Carlos Alberto fechou depressa a caderneta, o peito doía. O coração parecia haver crescido tanto, que lutava para escapar pela boca. Nem viu o ônibus entrar na rodoviária, levantou aflito e saiu quase correndo porque precisava de ar puro para respirara aurora rompia no céu e mais um dia começava.

"Honre seu pai para que os dias de sua velhice sejam tranqüilos!"- certa vez ele tinha ouvido essa frase e  jamais havia refletido o na profundidade que ela continha.

Em sua egocêntrica cegueira de adolescente, jamais havia parado para pensar em verdades mais  profundas.

Para ele, os pais eram descartáveis e sem valor como as embalagens que são atiradas ao lixo.  Afinal, naqueles dias de pouca reflexão tudo era juventude, saúde, beleza, musica, cor, alegria, despreocupação e vaidade.

Não era ele um semideus?  Agora, porém, o tempo o havia envelhecido, fatigado e também tornado pai aquele falso herói.



Escrito por MANOEL PEREIRA às 15h53
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   CONTINUAÇÃO II

Páginas amareladas. Na primeira, no alto, reconheceu a caligrafia firme do pai:

"Nasceu hoje o Carlos Alberto. Quase quatro quilos! O meu primeiro filho, um garotão!".

Estou orgulhoso de ser o pai daquele que será a minha continuação na Terra!".

À medida que folheava, devorando cada anotação, sentia um aperto na boca do estomago, mistura de dor e perplexidade, pois as imagens do passado ressurgiram firmes e atrevidas como se acabassem de acontecer!

"Hoje, meu filho foi para escola. Está um homenzinho! Quando eu vi ele de uniforme, fiquei emocionado e  desejei-lhe um futuro cheio de sabedoria. A vida dele será diferente da minha, que não pude estudar por ter sido obrigado a ajudar meu pai.

Mas para meu filho desejo o melhor. Não permitirei que a vida o castigue".

Outra página - "Carlos  Alberto me pediu uma bicicleta, meu salário não dá, mas ele merece porque é  estudioso e esforçado. Fiz um empréstimo que espero pagar com horas extras".

Carlos Alberto mordeu os lábios. Lembrava-se da sua intolerância, das brigas feitas para ganhar a sonhada bicicleta. Se todos os amigos ricos tinham uma, por que ele também não poderia ter a sua?

E quando, no dia do aniversário, a havia recebido, tinha corrido aos braços da mãe sem sequer olhar para o pai. Ora, o "elho” vivia mal-humorado, queixando-se do cansaço, tinha os olhos sempre vermelhos... e Carlos Alberto detestava aqueles olhos injetados sem  jamais haver suspeitado que eram de trabalhar até a meia-noite para pagar a bicicleta... !

"Hoje fui obrigado a levantar a mão contra meu filho! Preferia que ela tivesse sido cortada, mas fui  preciso tentar chamá-lo á razão, Carlos Alberto anda em más companhias, tem vergonha da pobreza dos pais e, se não disciplinar amanhã será um marginal."

"É duro para um pai castigar um filho e bem sei que ele poderá me odiar por isso; entretanto, devo educá-lo para seu próprio bem."

"Foi assim que aprendi a ser um homem honrado e esse é o único modo que sei de ensiná-lo".



Escrito por MANOEL PEREIRA às 15h51
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   CONTINUAÇÃO

O velório: poucas pessoas.

A mãe está lá, pálida, gelada, chorosa. Quando reviu o filho, as lágrimas correram silenciosas, foi um  abraço de desesperado silêncio. Depois, ele viu o corpo sereno envolto por um lençol de rosas vermelho - como as que o pai gostava de cultivar.

Carlos Alberto não verteu uma única lágrima, o coração não pedia. Era como estar diante de um desconhecido um estranho, um...

O funeral: o sabiá cantando, o sol se pondo.

  Ele ficou em casa com a mãe até a noite, beijou-a e prometeu que voltaria trazendo netos e esposa para conhecê-la. Agora, ele poderia voltar à casa,  porque aquele que não o amava, não estava mais lá para dar-lhe conselhos ácidos nem para criticá-lo

Na hora da despedida a mãe colocou-lhe algo pequeno e retangular na mão

- Há mais tempo você poderia ter recebido isto - disse.

- Mas, infelizmente só depois que ele se foi eu encontrei entre os guardados mais importantes...

Foi um gesto mecânico que, minutos depois de começar a viagem, meteu a não no bolso e sentiu o presente. O foco mortiço da luz do bagageiro revelou uma pequena caderneta de capa vermelha.  Abriu-a curioso.



Escrito por MANOEL PEREIRA às 15h49
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