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Brasília vista de fora
"Passei duas semanas em São Paulo, interagi com alguns dos muitos tipos de louco que habitam aquela cidade e me intriguei profundamente com a cara que todos eles – das vovós aos modernos – faziam cada vez que eu falava que era de Brasília. “De Brasília?”, perguntavam. É, de Brasília. Por que?"
Nossa, mas lá é seco demais, não é, não?”, me perguntou uma vez um casalzinho. Lá fui eu explicar: é, é seco. Esse ano é que está durando muito, normalmente a seca acaba em agosto. Daqui a pouco começa a chover normalmente, como em qualquer outra cidade. Eu nasci em Brasília, sabe?, e nem ligo muito para a seca. Acho até bom, porque detesto ter de carregar sombrinha. E depois Brasília é um pouco seca, mas de jeito nenhum que é árida como isso daqui. Pelo menos tem árvores, tem umas graminhas, tem o Lago, é bem mais bucólico. Aliás, ‘bucólico’ é a cara de Brasília.
“E aquele Lago lá é limpo?” Bom, limpo, limpo, não é, mas também não é sujo. Dá para tomar banho, mas eu não arriscaria beber daquela água. Na verdade, o mais legal do Lago é o visual, é sentar num barzinho ali na beira, almoçar num restaurante legal em dia de sol. Dá outro astral para a cidade, dá uma espairecida. Sabe como?
E perguntaram o de sempre, você vê o Lula?, tem gente que mora naqueles predinhos perto do Congresso?, onde ficam as casas das pessoas? Fui respondendo. E fiquei pensando como que pode as pessoas saberem tão pouco de Brasília. Terem uma imagem tão desumanizada disso daqui. Quem nunca veio a Brasília consegue imaginar pessoas trabalhando, pessoas em repartições públicas, pessoas em manifestações na rua – mas não consegue pensar em pessoas fazendo compras, deixando o filho no colégio, vivendo, existindo.
Aí pensei comigo, por que isso? Comecei a reparar como que era Brasília vista de fora, qual a imagem que chega a um cidadão comum, de São Paulo, por exemplo, sobre a minha cidade.
Imagem número um, claro, Jornal Nacional. O repórter de pé, Congresso ou Palácio do Planalto ao fundo, uma notícia qualquer de política ou economia. Da cidade, mesmo, zero.
Zapeando na tevê, achei a imagem número dois: nossa secretária de Turismo, Lúcia Flecha de Lima, dando entrevista num daqueles programas tipo coluna social, falando dos lugares de que ela mais gostava em Brasília. Quando ela começou com o Piantella, eu mudei de canal.
Imagem número três, bem mais feliz: a propaganda do BMFE em um fanzine moderninho que eu recolhi em um brechó na rua Augusta. “Viu?”, perguntei pro vendedor da lojinha. “Vi, claro. Todo mundo vai”.
Que bom, eu pensei. Venham mesmo. Que quem sabe assim nossa reputação melhora.
Carol Nogueira é jornalista e brasiliense convicta, quase morreu sufocada pela poluição de São Paulo e está feliz por estar de volta. Ela escreve a coluna grande-circular quinzenalmente no Canal Brasília.
Escrito por MANOEL PEREIRA às 00h41
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